Eu queria um coração cheio de desejos bons e com planos para o futuro que realmente me animassem. Todo mundo fala que a gente precisa de sonhos pra mover a vida, que é preciso ter um mínimo de coragem para ir atrás deles. Eu odeio ser clichê. Mas eu queria hoje uma noite bem clichê.
Eu queria ir escovar os dentes pensando feito boba em coisas queridas, pôr um sorriso no rosto antes de rezar, analisar a minha vida e pensar: 'puxa, que boa que ela é'. Lavar o rosto sem aperto no peito e saber que alguém se emociona de olhá-lo. Mirar-me por admirar-me. Mesmo quando eu me sinto a mais feia e odienta das criaturas. Isso sim seria clichê. Iria dormir com cara de bocó.
Não. Hoje, eu não terei o querido. Eu dormirei pensando que o ser humano é mesmo malvado e que não importa como nem quanto você é legal, bondoso. É zás trás nó cego! As pessoas estão aqui pra aproveitar-se de você. Eu conheci um senhor de bigodes, que me amou a vida toda e ele sempre disse que as pessoas nos amam por interesse. Interesse de todo tipo.
Quais são os bons e os maus interesses? Que interesses eu tenho nas pessoas? E os que as pessoas têm comigo? Muitos interesses são vitais. Depois de um tempo, bobos. Outros são completamente, inaceitavelmente ruins a todo tempo. Mas pra quem? E quem foi que os julgou assim? Se algum interesse ruim me fizesse feliz, mesmo que mentindo com intenções sinceras, com doçura e cautela, sem me deixar perceber jamais que era mentira, acabando por se confundir nela própria, eu morreria por esse interesse. Por quem me tivesse interesse. Mas não há.
Quantos interesses o homem de bigodes teria em mim? De qual tipo? Nem sei. Talvez tenha sido a minha última mentira sincera. Minha noite não vai ser clichê. Há muito barulho em mim. E eu não sei o que é de meu interesse agora. Nem sua qualidade. Aquilo por que me interesso é de tanta valia mesmo? Os meus quem julgava, por enquanto, era eu. Mas não hoje. Acho que é porque o amor que espero é o que seja desinteressado ao ponto de comover-me de tanta despretensão. E eu ainda não consegui enxergá-lo nem senti-lo. Eu amo assim. E por amar desta forma, fui tola como Clarice e 'pensei que amar é fácil'.
Eu não queria dormir pensando nisso. A sensação da mordida no pão hot-dog recheado de doce de leite seria um melhor pensamento. O jeito, por agora, é deglutir o pão seco e desinteressante.
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