domingo, 11 de maio de 2014

A nossa riqueza.

Eu nasci em casa. Vai ter um amigo que vai para sempre dizer que eu só sei apresentá-lo dessa forma, mas eu nasci  praticamente no carro da mãe dele, oras!
O mistério é que por mais que seja contada mil vezes, ainda vai aparecer alguém para se impressionar.
O parto de mamãe, pro meu nascimento, foi em casa, no sofá, com minha irmã (aos quatro anos de vida) presenciando e meu pai fazendo as vezes de parteiro.

Vinte e quatro anos depois, era eu quem estava ali, quem dera na posição de parteiro, mas não, apenas admirando. Era uma noite esperada, nervosa e quase todos ansiavam mais do que a própria mãe. Esta que era a mais medrosa, mais dependente e mais emotiva que já se pôde ter, a minha irmã.

Daí que eu pedi que ela se segurasse na minha força e na minha coragem para aquele momento tão dela, tão meu, tão só meu e dela, como foi durante muitos anos da nossa vida, uma segurando a outra. E veio, a nossa riqueza nasceu laçada, chorando em desespero, a plenos pulmões.

Foi naquele momento que eu finalmente pude concretizar na alma a sensação de pertencer a alguém, de me sentir inteiramente entregue e vulnerável emocionalmente por um ser muito mais frágil e dependente que eu.

A nossa riqueza nasceu com 3,275kg, 51cm, carregando o nome Ricco consigo. Hoje, o mini ser humano bate minha porta, esconde meus pertences, toma banho comigo, chora e dorme ao meu lado há um ano e meio. O ser humano nem é meu, mas é como se fosse, porque ele se vê em mim e eu me vejo nele. Através dos olhos, através dos gestos.

De alguma forma, naquela noite, que foi só escuridão em todo Nordeste, de alguma forma cósmica, eu, minha irmã, meu pai e minha mãe estivemos todos unidos novamente.

O Yuri Ricco escolheu o dia do aniversário da minha melhor amiga para nascer, escolheu olhar pra mim antes de ver os médicos, escolheu meu colo pra dormir, escolheu chorar quando não me acha no quarto. Talvez sejam os olhos, talvez seja a alegria, talvez tenha sido o desejo de papai me mostrar é quão forte é o sentimento de acompanhar um parto. Deu certo. Eu vi, papai, vi sim. É forte, puro e genuíno, é amor sem medida.


(Yuri Ricco nasceu em 25 de outubro de 2012, presenciei todos os momentos na sala de parto. Neste mesmo dia, minutos após, o Nordeste inteiro ficou sem energia, além de parte de Minas Gerais.)


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