segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Quase-palavra.

Desde criança, devo confessar que não há nada que me deixe mais comovida do que as onomatopéias. E olhe só! Três meses. É tudo que um mini-ser humano precisa para escutar. Nessa época, os bebês não têm aparelho auditivo formado, eles misturam os sentidos e estes são espalhados pelo corpo, na pele. E é mais ou menos assim que acontece comigo até hoje. Todo tempo, o tempo todo, com qualquer som. São eles que trazem o de mais verdadeiro que se pode esperar de outra pessoa. Porque é impulso, reflexo. Ultimamente, tenho aproveitado mais das conversas através desses microsons do que com a união de letrinhas, que formam palavras, numa frase cheeeia de adjuntos, apostos, objetos, verbos e zás.

Um ‘tsc’ de decepção, reprovação ou zombaria é mais válido para comprovar as situações. Mesmo porque essas expressões nunca vêm sozinhas, sempre têm gestos e cacoetes se lhe colados.

Até o barulho, como as cerejas de Lygia Fagundes Telles caindo. Seria o fim de toda a doçura que existia. ‘As cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira’. Nada em dias pôde ter mais crueldade do que o barulho delas caindo. Eu acredito mesmo que, de todo o conto, a magia maior é quando elas caem. Eu pude sentir isso aos 17 anos na primeira vez que o li. Acho que a Lygia fez isso o tempo todo. Com o galopar do cavalo de Marcelo, com o crochê da Madrinha e as inesquecíveis cerejas vermelhas de Tia Olívia.

Do mesmo jeito, a música. Que se pode classificar, amar e odiar. Cada um de nós, à sua própria percepção. O jeito de emocionar, o levantar e abaixar de notas, tons e cordas. Fazendo que até o Chico sem pretensão – desta vez não, foi acidente! – pusesse o céu no mais agudo e o chão no mais grave. Até mesmo quando não existe instrumento, só voz. E, ainda assim, arrepiam-nos os fios.

Eu poderia mesmo falar de todos os tipos de sons que tenho ouvido nos dias de minha vida, usar toda a intertextualidade que eu pudera, até mesmo dos sustos que tive e do barulho de minha respiração frenética a fim de que me acalme.
Grandes sustos. Grandes pesadelos. Que me levam a choros compulsivos. Cheios de ais e de uis e que me pesam na cabeça. No way.

A grande verdade é que eu só fiz isso para falar de um único som. Que me põe emocionada como o diabo, tonta como o fechar de olhos em embriaguez e que, acompanhada de mãos enlaçadas, suga-me o ar. É a minha quase-palavra. A nossa quase-palavra. A que um de nós murmura.

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