sábado, 19 de janeiro de 2008

Renascer ou É de nascença.

As ondas do mar lambem minhas pernas; um, dois, três passos dentro d’água. O vento emaranha meus cabelos. À medida que me distancio da terra, o nível da água sobe pelo meu corpo, eriça pêlo por pêlo, molha o biquíni e, enfim, atinge meu umbigo.

Paro e observo a praia. O sol, seu reflexo no mar que aumenta. Nascendo agora, parece um bebê sendo retirado do ventre; parto em que o universo não põe força, não sente dor alguma e nem é necessário o uso do fórceps. Simplesmente nasce, iluminando, aquecendo...

A água continua a bater-me; fico oscilante, sinto a areia sumir debaixo dos meus pés, pela primeira vez, sinto o real confundir-se ao imaginário, estou, literalmente, perdendo meu chão.

Adianto mais dois passos em direção ao horizonte, sinto o bico de meus seios arrepiarem, assim como o resto do corpo. Dou alguns tremeliques de frio. Mergulho. Penso na vitalidade que a água sempre transmitiu pra mim. Não dou braçadas, nem pernadas como nos treinos da natação que, há muito, pratico. Fico lá embaixo, parada, olhos cerrados, deixando o corpo livre, solto, sem nenhum movimento na intenção de manter-me fixa.

Por quantos minutos eu fiquei lá embaixo? Não sei ao certo; graças ao bom preparo físico e à minha capacidade de concentração, talvez dois quem sabe três minutos. Nessa imersão, transportei-me para o profundo “eu-único” – que me perdoem os poetas pela tosca analogia – e, quase recomposta de todos os pensamentos que me fizeram cometer tal atitude, retornei à superfície.

Estou a, no mínimo, duzentos metros de onde mergulhei; Procurando situar-me física e psicologicamente, analiso novamente a praia; o sol já apagou sua luz sobre as águas, comparado ao que vi anteriormente. O milagre de nascimento do sol durou minutos, dos quais alguns não pude observar de onde estava.

Minha boca está seca, atrito minha língua nos lábios e posso sentir a salinidade da água. A areia da praia não mais foge dos meus pés, agora, é firme. Meus pensamentos são maduros e posso encarar a vida e suas contradições novamente. A galera da praia pergunta o motivo de súbito desaparecimento. Com um largo sorriso e meu inseparável furo que se forma na bochecha, respondo:

– Foi só um mergulho!

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