domingo, 22 de março de 2009

An unfortunate slide

"I don't think you unworthy
But I need a moment to deliberate"

E eu vou ser assexuada. Pelo menos, se me deixarem, né, Sávia? ahsuashaushaus
Começar a fazer mais por mim. Porque eu continuo sendo o centro de mim mesma, oras! :P
Clichê, mas amor próprio está sempre em alta. :*

...



Olhava os sapatos e pensava. Os pés bonitos e bem desenhados ainda tinham alguns calos, mas incrivelmente bonitos. Não era daqueles pés pequenos nem de princesinha de conto de fadas. Pés firmes, sem cavas, mas firmes. Forçava e pisava com o calcanhar, fazia barulho. No andar de baixo, a mãe sempre reclamava: 'Menina, pisa direito, parece que pesa uma tonelada!'

Pensava que talvez pesasse mesmo. A vida tão difícil, mas ela nem lembrava isso, as pessoas olhavam com pena, como se ela tivesse tido tanto sofrimento, mas na verdade foi tudo tão natural! A imensa dor sempre foi vista com alegria por não achar tão pesada de carregar. E essa tonelada toda só era sentida nos calcanhares.

Há quem diga que andasse como uma dessas moças de propaganda de xampu, mesmo com os cabelos curtos, insistiam nessa. Outros diziam ter graça o seu andar, como se fosse parar a cada novo passo. De tão diferente era o caminho que os pés faziam para fazer-lhe o dever de locomoção. E adorava caminhar. Sentir o vento, os cabelos, o chão firme.

Os pés não usavam salto, na maior parte do tempo, agradeciam por isso. Não dispensavam uma boa dança de ponta. Bem na pontinha mesmo dos pés. A moça ficava delirante. Cabelos soltos, o suor no corpo, a ponta dos pés descalços - imuuuundos - e o samba.

Como era aquilo? Ninguém nunca ensinou! Na verdade, nunca vira nem sua mãe dançar daquele jeito. Quem visse acreditava ser sambista desde a infância. Que nada! Dançarina de espelho e olhe lá. Precisava sempre de uma boa dose de vodka para que os pés não se aguentassem mais parados e tomassem conta de todo o corpo. A verdade é que gostava, não podia nem ouvir um barulhinho de batida mais profunda.

Mas não era em nada disso que ela pensava quando fitava os pés dentro dos sapatos. Era no caminho novo, solitário, inusitado. Nas decisões e nos caminhos. Queria fechar os olhos e ser levada pelos pés. E o que escolhido fosse, estava feito. Mas e se ela olhasse pra trás? E se os pés pisassem em falso? E se alguém tivesse fechado seus olhos de propósito? E se esse alguém escolhesse o caminho bom?

Tantas dúvidas, que ela só pensava num pé na frente do outro. Num pé sambando. No duro? No duro? Tinindo trincando. Com pesar e elegância. Esperando o sapatinho de cristal e, enfim, deixando-se levar pelo caminho.

...

Para ler ouvindo: Falsa Baiana - Roberta Sá, no CD Sambas e Bossas. :)

Nenhum comentário: